O que pensar?
Para não dizer que já interpretei, há muito tempo, o contexto político do nosso país...
Bem assim!!!!
http://www.cartacapital.com.br/politica/protesto-na-estreia-de-aquarius-foi-simbolico-e-eterno
domingo, 19 de junho de 2016
A LENDA DO REI ARTHUR: ALGUMAS CURIOSIDADES
Caros leitores,
os quais gostam de ampliar vivências aproveitando a abertura universal das artes, sejam elas cinematográficas, musical, literária, pintura, arquitetura ou as moderna minisséries - que não deixem de ler esse material sobre uma das novelas de cavalaria mais famosas:
"Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda" ( ver link abaixo) ou ainda de assistir a Camelot (minissérie).
63576http://homoliteratus.com/a-lenda-do-rei-arthur-algumas-curiosidades/#comment-63576
terça-feira, 14 de junho de 2016
AMOR NO LIXO
Deusdélia Pereira Vilas Boas
Manhã fria em São Paulo, no coração de São Miguel Paulista, Zona Leste da capital. Uma corrente gélida enfiava-se em meio aos fios tão bem urdidos do meu casaco e estremecia-me o corpo. Outro era o estremecimento da minha alma. Isso sim, naquele dia, mudaria minha percepção sobre o amor. A rua, já tomada pelo formigueiro humano de todo dia, obrigava os transeuntes a se apertarem diante de uma agência bancária. Não sei se contei que o fato ocorreu numa das avenidas mais movimentadas do bairro o que tornava turva a visão de qualquer observador sobre os episódios que realmente brotavam da multidão em trânsito por ali.
Embora o intuito de cada indivíduo que tomara seu lugar na fila fosse, primeiramente, o de realizar alguma transação financeira, uma cena incrível me obrigou a uma leitura rápida ali mesmo, em pé, na barulhenta calçada. Todavia, o clima gelado não era empecilho para a fila que se esticava e tomava forma em frente a tal agência em São Miguel Paulista. A extensão de quase meia quadra evidenciava tanto a velha e tradicional fila da qual, dificilmente, o brasileiro poderia escapar como também parecia obra da providência: oportuno testemunho de um fato intrigante entre dois moradores de rua. Essa cena jamais seria apagada da minha memória leitora, inquieta e perscrutadora dos fatos.
Mês dos Namorados, dos amantes, dos casados, dos mal ajuntados, dos estáveis e instáveis. Não importava que tipo de conjunção cada um admitisse... Mas a verdade é que resmunguei decidida para um colega, professor de Biologia:
- Dar-lhe um real? Jamais!! Levanto-me de madrugada, trabalho de aula a aula... Como? Um real para quê?
- Senhora, um real, por favor!! – insistia o morador mais novo daquele lugar.
Novo pelo menos para mim que acabara de conhecê-lo e não gostara de forma alguma da abordagem econômica que me fizera tão cedo do dia - embora eu já estivesse acordada, pois me pusera a corrigir, desde as duas horas da madrugada, os textos dos meus escritores mais devotados, ou mesmos os daqueles a que obriguei ao intratável ofício. Um real... Esse era o valor que, pedia às pessoas, o mendigo dono da cama bem ali, diante do meu olhar inconformado. Cama dura, desarrumada, cercada de papelão, evidenciando a noite onde dormira recentemente o casal – fato que não perturbara meu espírito frio naquela manhã.
Apesar das evidências sobre nossa diferença social, decididamente, eu recusei a ouvir seu pedido. Afinal, quem em lúcida consciência sobre a vida, o estudo, o trabalho, a justiça, o esforço lhe daria um real? Certamente muitos se condoeram do homem mal vestido, mal agasalhado, mal interpretado, malquisto, mal apresentado, malcheiroso, mal tudo...
Continuava imersa nessas curtas reflexões tendenciosas, tentando dar significado à minha permanência naquela fila, pois, honradamente, conquistara meu salário, minha vida, minha amargura, meu pesar, minha indiferença... E mais: sentia-me dona do meu destino, da minha completa indignação quando os vi a conversarem a poucos metros da fila. Não fora possível saber sobre o que falavam e continuei a entabular conversa com o colega sem insistir em entender qualquer ponto ou vírgula da prosa entre os dois, aparentemente desinteressada.
Não demorou muito quando vi o homem retornando com uma garrafa suja. De posse do objeto, a mulher entornou-o e de um gole só devorou o seu conteúdo. Foi exatamente naquele momento que me enxerguei pelo avesso.
A mulher que, usava chinelos velhos para agasalhar os dedos sujos, voltou-se para o pobre homem e puxou-o para junto de si, colando o seu corpo no dele, de forma que o céu tornou-se o seu teto iluminado, e deu-lhe um beijo cinematográfico.
E agora o beijo? Nossa! Ele nem percebeu que ela era banguela, nem reclamou da falta de perfume, muito menos do cabelo sem corte, sem escova, sem chapinha. Simplesmente deixou ser beijado por ela naquela manhã fria dos namorados.
Não sei se tomada de inveja, de surpresa, de mal-estar social, fui obrigada a engolir a seco a verdade incontestável: os dois mereciam o dinheiro. Um real não era nada diante daquela demonstração de afeto, de amor... Portanto, o tal sentimento mostrou sua face magnetizada, vivaz, sem teto - porque ali - contando apenas com o céu por testemunha, ou melhor, comigo, aluna da maior lição: AMOR no LIXO – longe do lençol branco perfumado, da cama macia, do teto, das velas, dos jantares, dos presentes – AMOR no LIXO, simplesmente AMOR.
A partir de hoje vou publicar os 30 melhores contos segundo "Homo Literatus". Incrível! Dos brasileiros, só Machado de Assis entre os escritores escolhidos - com o conto "Missa do Galo".
Confiram o primeiro:
À Deriva
Horácio Quiroga
O homem pisou algo brando e mole
e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se voltar com um
palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma; preparava outro
ataque.
O homem lançou uma rápida olhada a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue engrossavam dificultosamente, e então sacou o facão da cintura. A víbora viu a ameaça, e fundiu mais a cabeça no centro mesmo de sua espiral; porém o facão caiu sobre ela, deslocando-lhe as vértebras.
O homem abaixou-se para olhar a mordida, limpou as gotinhas de sangue, e durante algum tempo contemplou. Uma dor aguda nascia dos dois pontinhos violeta, e começava a expandir-se por todo o pé. Apressadamente, amarrou o tornozelo com o lenço que trazia amarrado à cintura, e seguiu pela picada até seu rancho.
A dor no pé aumentava, e de repente, o homem sentiu dois ou três fulgurantes pontadas que como relâmpagos haviam-se irradiado da ferida, até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade; uma sede metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, arrancou-lhe outro palavrão.
Chegou finalmente ao rancho, e abraçou a roda do moinho. O dois pontinhos violeta desapareciam agora na monstruosa inchação do pé inteiro. Parecia-lhe enfraquecida, e a ponto de ceder, de tão tensa. O homem quis chamar sua mulher, mas sua voz se quebrou num grunhido rouco de garganta ressecada. A sede o devorava.
— Dorotea! — conseguiu lançar um grito. — Me dá cachaça!
Sua mulher correu com um copo cheio, que o homem sorveu de três tragos. Porém não havia sentido gosto algum.
— Te pedi cachaça, não água! — rugiu de novo. — Quero cachaça!
— Mas é cachaça, Paulino! — protestou a mulher, espantada.
— Não, me deste água! Quero cachaça, te digo!
A mulher correu outra vez, voltando com o garrafão. O homem bebeu um atrás do outro três copos, porém não sentiu nada na garganta.
— Bom, isto está feio... - murmurou então, olhando seu pé lívido e já com um brilho gangrenoso. Sobre a intensa atadura do lenço, a carne transbordava como uma pavorosa morcela.
As dores fulgurantes sucediam-se em relâmpagos contínuos, e chegavam agora à virilha. Além disso, a atroz sequidão da garganta que o esforço parecia esquentar mais, aumentava. Quando pretendia encorpar-se, um fulminante vômito manteve-o meio minuto com a testa apoiada na roda de madeira.
Mas o homem não queria morrer, e descendo à costa, subiu em sua canoa. Sentou-se na popa e começou a remar até o centro do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre por seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
O homem, com fatigada energia, pode efetivamente chegar até o meio do rio; no entanto, ali suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa, e por causa de um novo vômito — de sangue esta vez —, dirigiu um olhar ao sol que transpunha a montanha.
A perna inteira, até metade da coxa, era já um pedaço disforme e duríssimo que rompia a roupa. O homem cortou a ligadura e abriu a calça com a faca: a parte inferior desbordou inchada, com grandes manchas lívidas e terrivelmente dolorosas. O homem pensou que não poderia jamais chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, embora fizesse muito tempo estivessem intrigados um com o outro.
A correnteza do rio precipitava-se agora para a costa brasileira, e o homem pode facilmente atracar. Arrastou-se pela picada costa acima, porém a vinte metros, exausto, ficou estendido de costas.
— Alves! — gritou com a força que pode; e prestou atenção em vão.
— Compadre Alves! Não me negue este favor! — clamou de novo, levantando a cabeça do solo.
No silêncio da selva, não se ouviu um só rumor. O homem teve ainda forças para chegar até sua canoa, e a correnteza, apoderando-se dela de novo, levou-a à deriva.
O Paraná corre ali no fundo de uma imensa depressão, cujas paredes, com altura para lá de cem metros, estreitam funebremente o rio. Desde as margens cercadas de negros blocos de basalto eleva-se o bosque, negro também. Adiante, às costas, sempre a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio afunilado se precipita em incessantes erupções de água lodosa. A paisagem é agressiva, contudo, sua beleza sombria e calma cobra uma majestade única.
O sol havia já havia caído, quando o homem, estendido no fundo da canoa, teve um violento calafrio. E, de repente, com assombro, pôs na vertical pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. Somente a perna lhe doía, a sede apagava-se, e seu peito, livre já, abria-se em lenta inspiração.
O veneno começar a ir-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem, e embora não tivesse forças para mover a mão, contava com a vinda do orvalho para repor-se todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.
O bem-estar progredia e, com ele, uma letargia cheia de recordações. Não sentia mais nada na perna nem no ventre. Viveria ainda seu compadre Gaona em Tacurú-Pucú? Por acaso veria também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado de obras?
Chegaria repentinamente? O céu, a poente, abria-se agora num resplendor de sangue, e o rio se havia avermelhado também. Da costa paraguaia, já em trevas, a montanha deixava cair sobre o rio sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores de laranjeiras e mel silvestre. Um casal de araras cruzou o céu muito alto e em silêncio até o Paraguai.
Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando de tempos em tempos sobre si mesma, ante a erupção de um remoinho. O homem que ia nela se sentia cada vez melhor, e pensava no tempo justo em que havia passado sem ver seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isso sim, certamente.
De repente, sentiu que estava gelado até o peito. Que seria? E a respiração...
Ao madeireiro de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, havia conhecido em Puerto. Esperança em Sexta-feira Santa...Sexta-feira? Sim, ou quinta-feira...
O homem estendeu lentamente os dedos da mão.
— Uma quinta-feira...
E parou de respirar.
O homem lançou uma rápida olhada a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue engrossavam dificultosamente, e então sacou o facão da cintura. A víbora viu a ameaça, e fundiu mais a cabeça no centro mesmo de sua espiral; porém o facão caiu sobre ela, deslocando-lhe as vértebras.
O homem abaixou-se para olhar a mordida, limpou as gotinhas de sangue, e durante algum tempo contemplou. Uma dor aguda nascia dos dois pontinhos violeta, e começava a expandir-se por todo o pé. Apressadamente, amarrou o tornozelo com o lenço que trazia amarrado à cintura, e seguiu pela picada até seu rancho.
A dor no pé aumentava, e de repente, o homem sentiu dois ou três fulgurantes pontadas que como relâmpagos haviam-se irradiado da ferida, até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade; uma sede metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, arrancou-lhe outro palavrão.
Chegou finalmente ao rancho, e abraçou a roda do moinho. O dois pontinhos violeta desapareciam agora na monstruosa inchação do pé inteiro. Parecia-lhe enfraquecida, e a ponto de ceder, de tão tensa. O homem quis chamar sua mulher, mas sua voz se quebrou num grunhido rouco de garganta ressecada. A sede o devorava.
— Dorotea! — conseguiu lançar um grito. — Me dá cachaça!
Sua mulher correu com um copo cheio, que o homem sorveu de três tragos. Porém não havia sentido gosto algum.
— Te pedi cachaça, não água! — rugiu de novo. — Quero cachaça!
— Mas é cachaça, Paulino! — protestou a mulher, espantada.
— Não, me deste água! Quero cachaça, te digo!
A mulher correu outra vez, voltando com o garrafão. O homem bebeu um atrás do outro três copos, porém não sentiu nada na garganta.
— Bom, isto está feio... - murmurou então, olhando seu pé lívido e já com um brilho gangrenoso. Sobre a intensa atadura do lenço, a carne transbordava como uma pavorosa morcela.
As dores fulgurantes sucediam-se em relâmpagos contínuos, e chegavam agora à virilha. Além disso, a atroz sequidão da garganta que o esforço parecia esquentar mais, aumentava. Quando pretendia encorpar-se, um fulminante vômito manteve-o meio minuto com a testa apoiada na roda de madeira.
Mas o homem não queria morrer, e descendo à costa, subiu em sua canoa. Sentou-se na popa e começou a remar até o centro do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre por seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
O homem, com fatigada energia, pode efetivamente chegar até o meio do rio; no entanto, ali suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa, e por causa de um novo vômito — de sangue esta vez —, dirigiu um olhar ao sol que transpunha a montanha.
A perna inteira, até metade da coxa, era já um pedaço disforme e duríssimo que rompia a roupa. O homem cortou a ligadura e abriu a calça com a faca: a parte inferior desbordou inchada, com grandes manchas lívidas e terrivelmente dolorosas. O homem pensou que não poderia jamais chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, embora fizesse muito tempo estivessem intrigados um com o outro.
A correnteza do rio precipitava-se agora para a costa brasileira, e o homem pode facilmente atracar. Arrastou-se pela picada costa acima, porém a vinte metros, exausto, ficou estendido de costas.
— Alves! — gritou com a força que pode; e prestou atenção em vão.
— Compadre Alves! Não me negue este favor! — clamou de novo, levantando a cabeça do solo.
No silêncio da selva, não se ouviu um só rumor. O homem teve ainda forças para chegar até sua canoa, e a correnteza, apoderando-se dela de novo, levou-a à deriva.
O Paraná corre ali no fundo de uma imensa depressão, cujas paredes, com altura para lá de cem metros, estreitam funebremente o rio. Desde as margens cercadas de negros blocos de basalto eleva-se o bosque, negro também. Adiante, às costas, sempre a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio afunilado se precipita em incessantes erupções de água lodosa. A paisagem é agressiva, contudo, sua beleza sombria e calma cobra uma majestade única.
O sol havia já havia caído, quando o homem, estendido no fundo da canoa, teve um violento calafrio. E, de repente, com assombro, pôs na vertical pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. Somente a perna lhe doía, a sede apagava-se, e seu peito, livre já, abria-se em lenta inspiração.
O veneno começar a ir-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem, e embora não tivesse forças para mover a mão, contava com a vinda do orvalho para repor-se todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.
O bem-estar progredia e, com ele, uma letargia cheia de recordações. Não sentia mais nada na perna nem no ventre. Viveria ainda seu compadre Gaona em Tacurú-Pucú? Por acaso veria também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado de obras?
Chegaria repentinamente? O céu, a poente, abria-se agora num resplendor de sangue, e o rio se havia avermelhado também. Da costa paraguaia, já em trevas, a montanha deixava cair sobre o rio sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores de laranjeiras e mel silvestre. Um casal de araras cruzou o céu muito alto e em silêncio até o Paraguai.
Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando de tempos em tempos sobre si mesma, ante a erupção de um remoinho. O homem que ia nela se sentia cada vez melhor, e pensava no tempo justo em que havia passado sem ver seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isso sim, certamente.
De repente, sentiu que estava gelado até o peito. Que seria? E a respiração...
Ao madeireiro de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, havia conhecido em Puerto. Esperança em Sexta-feira Santa...Sexta-feira? Sim, ou quinta-feira...
O homem estendeu lentamente os dedos da mão.
— Uma quinta-feira...
E parou de respirar.
ATENÇÃO:
O conto
“À Deriva” foi extraído do livro “Cuentos de Amor, de Locura y de Muerte”, publicado
em 1917. A tradução livre é de Jádson Barros Neves.
FONTE: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/-deriva
domingo, 16 de junho de 2013
LITERATURA
AS CINCO VANGUARDAS EUROPEIAS (CONTEÚDO ADAPTADO):
Por Cássio José
As vanguardas
europeias foram manifestações artístico-literárias que passaram pelo Panorama
da Literatura do Brasil e deixaram de certa forma, sua contribuição, no que
podemos dizer ruptura da estética até então reinante no nosso país. De acordo
com o que se vê por parte dos postulantes da Literatura, foi na Semana da Arte
Moderna que essas “estéticas literárias” foram influenciando os pensamentos de
alguns literatos brasileiros pela inovação que se pretendia. Aqui, por fins
acadêmicos, trataremos das seguintes correntes de estética europeia que em dado
momento foi pressuposto para esse pensamento ideológico de Modernismo na
Literatura Brasileira: Expressionismo, Cubismo, Futurismo, Dadaísmo e
Surrealismo.
EXPRESSIONISMO: Surgido em 1910, foi manifestação
de povos nórdicos, germânicos e eslavos. Essa tendência expressou a angústia do
período anterior à Primeira Guerra Mundial, voltando-se para os produtos
artísticos dos primitivos e para as manifestações do mundo interior, expressas
no uso aleatório de cores intensas e distorção das formas, como atesta o quadro
O grito, do norueguês Edvard Munch.
Ficha
Técnica - O GRITO
Autor: Edvard
Munch
Onde ver: Galeria
Nacional, Oslo, Noruega
Ano: 1893
Técnica: Óleo e
pastel sobre cartão
Tamanho: 91cm x 73,5cm
Movimento:
Expressionismo
CUBISMO: Em 1907, Pablo Picasso pintou
Lês demoiselles d‘Avignon (As senhoritas de Avignon) e inaugurou o Cubismo.
Segundo essa tendência, as figuras, reduzidas a formas geométricas apresentam,
ao mesmo tempo, o perfil e a frente, mostrando mais de um ângulo de visão. A
literatura cubista, inaugurada por Apollinaire, preocupou-se com a construção
física do texto: valorizou o espaço da folha e a camada significante das
palavras e negou a estrofe, a rima, o verso tradicional. Esse seria o embrião
da nossa poesia concreta, da década de 50.
Ficha
Técnica : LES DEMOISELLES D’AVIGNON
Autor: Pablo Picasso
Ano: 1907
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 243,9cm x 233,7cm
Movimento Artístico: cubismo
Museu: Museu de Arte Moderna, Nova Iorque.
Autor: Pablo Picasso
Ano: 1907
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 243,9cm x 233,7cm
Movimento Artístico: cubismo
Museu: Museu de Arte Moderna, Nova Iorque.
FUTURISMO: Essa estética celebrava os
signos do novo mundo – a velocidade, a máquina, a eletricidade, a
industrialização. Apregoando a destruição do passado e dos meios tradicionais
de expressão literária, o Futurismo (tendência que mais influenciou a primeira
fase do Modernismo) propunha:
- Liberdade de
expressão;
- Destruição da
sintaxe;
- Abolição da
pontuação
- Uso de símbolos
matemáticos e musicais;
- Desprezo ao
adjetivo e ao advérbio.
- Apologia da
máquina, da velocidade, da luz e da própria sensação dinâmica;
- Libertação e
exaltação das energias;
- Exaltação do
presente, da velocidade e das formas dinâmicas produzidas pela civilização,
refletindo a vida moderna;
- Alternância de
planos e sobreposição de imagens, ora fundidas, ora encadeadas, para dar a
noção de velocidade e dinamismo;
- Arabescos
contorcidos, linhas circulares emaranhadas, espirais e elipses;
- Geometrização
dos planos em ângulo agudo, mais dinâmico, abolindo totalmente os ângulos retos
cubistas na organização espacial, permitindo a sugestão da fragmentação da luz;
- Cores muito
contrastadas, em composições violentas e chocantes.
Ficha Técnica - DINAMISMO DE UM
CICLISTA:
Autor: Umberto Boccioni
Onde ver: Acervo particular
Ano: 1913
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 70cm x 95cm
Movimento: Futurismo
Autor: Umberto Boccioni
Onde ver: Acervo particular
Ano: 1913
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 70cm x 95cm
Movimento: Futurismo
DADAÍSMO: Este foi o mais radical e
destruidor movimento da vanguarda européia. Fundado por Tristan Tzara, negava o
presente, o passado, o futuro e defendia a idéia de que qualquer combinação
inusitada promove um efeito estético. O Dadaísmo refletiu um sentimento de
saturação cultural, de crise social e política.
Ficha Técnica - O Crítico de Arte:
Autor: Raoul Hausmann
Onde ver: Tate Collection, Londres, Reino Unido
Ano: 1919
Técnica: Litografia e fotocolagem em papel
Tamanho: 32cm x 25,5cm
Movimento: Dadaísmo
Autor: Raoul Hausmann
Onde ver: Tate Collection, Londres, Reino Unido
Ano: 1919
Técnica: Litografia e fotocolagem em papel
Tamanho: 32cm x 25,5cm
Movimento: Dadaísmo
Leia sobre a arte
dadaísta:
SURREALISMO: Inaugurado com a publicação do
Manifesto Surrealista, em 1924, este foi o último movimento da vanguarda,
sofrendo influências das teorias de Freud, o Surrealismo caracterizou-se pela
busca do homem primitivo através da investigação do mundo do inconsciente e dos
sonhos. Na literatura, o traço fundamental foi a escrita automática (o autor
deixa-se levar pelo impulso e registra, sem controle racional, tudo o que o
inconsciente lhe ditar, sem se preocupar com a lógica.
Ficha
Técnica – A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA
Autor: Salvador
Dalí
Onde ver: MoMa,
Nova York, Estados Unidos
Ano: 1931
Técnica: Óleo
sobre tela
Tamanho: 24cm x
33cm
Movimento:
Surrealismo
Leia sobre:
Comentário
Crítico:
Percebe-se que os
literatos brasileiros em algumas escolas literárias (como no Romantismo e
Realismo, por exemplo), desejavam mostrar o “verdadeiro” Brasil. E isso,
evidentemente, não poderia ser diferente, na nova estética literária
brasileira, o que se percebe certa abertura e espaço, bem como sua influência
da literatura estrangeira ou de ideologias que vinham de fora. Parece que os
autores olham para o Brasil e fazem de sua literatura “palco de manifestações
reais” do que realmente o Brasil é expondo as variadas facetas ou realidade do
nosso país. Alguns livros didáticos até afirmam que a realidade verdadeira do
Brasil era ignorada pela Literatura até então.
As vanguardas como
movimentos artísticos, estética literária ou correntes da Literatura Europeia
foram resultados ou consequências do que aconteceram no cenário europeu do
século XX: problemas políticos, conflitos entre países vizinhos, intercâmbio
entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial...
A expressão
vanguarda pode ser entendida como parcela dos intelectuais que exerce um papel
pioneiro, desenvolvendo técnicas, ideias e conceitos novos, avançados,
especialmente nas artes. O que havia de comum era nada mais do que conflitos ou
debates de uma herança do século passado. É um grito do novo: os padrões da
antiga estética literária e artística devem ceder lugar àquilo que estava por
vir: O Modernismo. Havia assim manifestações desse “novo” em suas obras e
divulgação de novas estratégias formais do tempo.
Podemos, assim,
refletir de uma desestruturação ou falta de uma literatura fixamente ou
realmente brasileira. E se assim o é, tem forte influência estrangeira: É
então, como se diz da boca de postulantes da Literatura um movimento que
expressa pela arte o que é de fato o nosso país em dado momento? Somos
simplesmente consequência ou resultado do que acontece lá fora no cenário
mundial e reestruturados em um “quebra-cabeça” que na época foi apresentado
como “Literatura Brasileira”.
REFERÊNCIAS:
ABAURRE, Maria Luiza; FADEL, Tatiana;
PONTARA, Marcela Nogueira. Português: Língua, Literatura, Produção de texto.
São Paulo: Moderna, 2004.
OLIVEIRA, Ana
Teresa Pinto de. Literatura Brasileira: Teoria e prática. São Paulo: Rideel,
2006.
FONTE: Blog do Prof. Cássio José.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
LIMA BARRETO
SUGESTÃO DE LEITURA: ENSAIO (TEXTO ACADÊMICO):
O
ensaio é de autoria da acadêmica Sarah Fernanda de Carvalho: contempla
vida e obra do nacionalista/anarquista Afonso Henriques de Lima Barreto.
Afonso
Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 1881. Seus textos possuem
características jornalísticas (aspecto de crônica) e urbanistas.
Lima
Barreto procurava mostrar a realidade como ele percebia, fazendo duras críticas
à sociedade, costumes e valores através de seus personagens. Ele utiliza o
discurso em 3ª pessoa, pois dessa forma se distancia das personagens,
tornando-se onisciente, além de transmitir para as personagens valores que
estão presentes na sua essência. Seus contos são imprevisíveis, como por
exemplo, o conto “Um Especialista”, no qual dois amigos que se encontram todas
as tardes comentam sobre a vida, os amores, os negócios, até que um dos amigos
comenta que está namorando uma bela mulata e por fim acaba por descobrir que
ela é sua filha, dessa maneira acaba acontecendo um incesto não proposital.
É
perceptível a presença autobiográfica nos contos de Lima Barreto. Ele faz uma
mescla da sua biografia com um pouco de ficção, como fica nítido em vários
contos. Em “O filho de Gabriela”, a personagem Horácio, assim como Lima
Barreto, tem seus estudos bancados pelo padrinho, porém sempre se sentiu
deslocado; em “Harakashy e as escolas de Java” Lima Barreto faz uma sátira às
escolas brasileiras (corrupção no ensino) e à Academia Brasileira de Letras (na
qual foi barrado), metaforizadas nas instituições de Java: o jovem Harakashy
foi expulso das escolas de Java assim como Lima Barreto sofreu na Escola
Politécnica, ele sofreu muito preconceito por ser negro e pobre, e por isso
nunca conseguiu concluir o curso. Nesses dois contos é visível a presença do
tom irônico de Lima Barreto, no qual ele deixa-se levar por impulsos íntimos,
todos frutos da mágoa e do sentimento de inferioridade que passou a sentir após
vários fatos negativos que ocorreram em sua vida.
É
notável a presença da crítica ao falso moralismo da sociedade burguesa. Em “A
Nova Califórnia”, é feita uma crítica à ganância. O falso moralismo é quebrado
com a descoberta do lucro, existe também a valorização do que a sociedade
rejeita: a única pessoa que não viola as sepulturas em busca de ossos é o
bêbado Belmiro que ficou bebendo, indiferente a tudo que acontecia, sem se
preocupar em obter lucro através dos ossos dos mortos. Uma curiosidade: esse
conto foi adaptado para a Rede Globo e foi ao ar como novela – Fera Ferida. No
conto “O homem que sabia Javanês” um amigo conta a outro sobre as espertezas e
trapaças que usou para sobreviver: uma delas foi fingir que sabia Javanês sem o
saber. Ele conta que foi até nomeado cônsul e representou o Brasil em uma
reunião de sábios, deu palestras e publicou pelo mundo em Java. Esse conto
mostra a falta de honestidade para conseguir, de certa forma, se dar bem na
vida e tirar sempre alguma vantagem sobre os outros. Em “Cló” é retratada a
decadência moral de uma família durante o carnaval no Rio de Janeiro, tendo
como personagem principal Cló, filha do casal Isabel e Maximiliano, que procura
sem rodeios se insinuar para o Doutor André, um amigo da família que é casado.
O conto termina com Cló se entregando ao Doutor André (“... Ao acabar, era com
prazer especial, cheia de dengues nos olhos e na voz, com um longo gozo íntimo
que ela, sacudindo as ancas e pondo as mãos dobradas pelas costas na cintura,
curvava-se para o Doutor André e dizia vagamente: Mi compra ioiô! E repetia com
mais volúpia, ainda uma vez: Mi compra ioiô!”). Nesse conto fica retratado o
cotidiano de uma família suburbana carioca, diferente das famílias burguesas
que eram retratadas por Machado de Assis, em que a elite pondera, quer sempre
manter uma imagem, são hipócritas e escondem o que realmente são. Já para as
famílias suburbanas não existem pudores nem hipocrisia, eles são o que são sem
esconder nada. Em “Como o Homem chegou” é feita uma crítica à burocracia. Numa
delegacia do interior, um delegado manda um louco em um carro blindado com um
médico, sendo este tão “intelectual” que, durante a viagem de dois anos com
total falta de cuidado com o louco e um excesso de preocupação técnica, o
paciente chega morto. “Adélia” é um conto com uma carga social denunciativa
enorme, faz uma crítica a um hábito comum para a época: o de haver casamentos
das garotas que viviam na Casa de Expostos (orfanato) no dia de Santa Isabel. É
narrada a história de Adélia, que fora deixada pelos pais em um orfanato e se
casou no dia de Santa Isabel, sem amor. No princípio a vida sexual ativa lhe
agradou muito, mas passados dois anos de casamento o marido caiu enfermo, e
ela, insatisfeita com a vida de enfermeira de alguém que não ama, acaba cedendo
a um convite recebido e começa a se prostituir mesmo sentindo-se cobiçada,
desejada e ganhando muito dinheiro. Adélia nunca perdeu o olhar distante e
perdido que cultivou desde que foi deixada pelos pais no orfanato e que foi
casada no dia de Santa Isabel. Em “Uma vagabunda”, Frederico conta ao amigo
Chaves a história de Alzira, uma vagabunda que certa vez lhe pedira dinheiro
emprestado, mais precisamente cinco mil réis, logo após se encontrarem em um
bar. Logo depois, vendo-o pagar a conta com um volumoso monte de dinheiro,
pediu-lhe mais cinco mil, que Frederico negou. Alzira indignada atirou os cinco
mil que lhe haviam sido emprestados na cara de Frederico. Após um tempo,
Frederico sujo, maltrapilho, vivendo uma péssima fase entra em um bar no qual
Alzira está. Ela o cumprimenta educadamente e lhe oferece a passagem do bonde,
que de imediato Frederico nega, mas que acaba por aceitar. Esse conto quebra os
estigmas sociais e os estereótipos que a sociedade hipócrita faz de mulheres
como Alzira. A cena final demonstra a imperfeição dos juízos sem provas dos
pré-conceitos.
Nos
contos de Lima Barreto, as mulheres são retratadas de uma forma muito peculiar.
Em “Lívia” é contada a história de uma moça que já teve inúmeros namoros, mas
nenhum resultou em casamento, por isso ela passa os dias sonhando com um
casamento que lhe dê estabilidade e lhe tire de sua vida miserável. Esse conto
faz uma crítica às mulheres que pensam em casar-se não por amor, mas sim por
mera conveniência para solucionar problemas financeiros e viver de forma
luxuosa. Essas mulheres têm um pensamento racional em relação ao amor e ao
casamento. Lívia age de maneira leviana. Já em “Um e Outro” é contada a
história de Lola, uma mulher dissimulada que abandonou o marido e tornou-se
amante de luxo do homem que um dia fora seu patrão, mas apesar de todos os seus
amantes ricos e poderosos, ela gosta mesmo do rude motorista que dirige o carro
de luxo em que passeia. Quando vai ao encontro dele depois de uma semana,
descobre que ele deixou de dirigir o carro de luxo para dirigir um táxi. Ela
imediatamente perde a atração por ele (“... Não era o mesmo, não era o
semideus, ele que estava ali presente; era outro ou antes ele era degradado,
mutilado, horrendamente mutilado. Guiando um “táxi”...Meu Deus!...” ). É
possível identificar características do Pré-Modernismo nos contos de Lima
Barreto, pois mostram a realidade da humanidade.
Outra
característica de Lima Barreto é o xenofobismo. Ele tem repugnância a tudo que
é estrangeiro, como fica explícito no conto “Miss Edith e seu tio” – o título,
por si só, já estrangeiro –, em que é narrada a história de dois ingleses: Miss
Edith e seu tio, que chegam a uma pensão no Rio de Janeiro e mantêm-se arrogantemente
distantes. Todos na pensão sentem-se inferiores aos magníficos ingleses. Essa
suposta superioridade não é só física, mas também é intelectual. Porém, no
final, toda essa superioridade é quebrada quando Angélica, uma das empregadas
da pensão, pega a sobrinha saindo do quarto do tio (“... Premida pelo serviço,
Angélica saiu do aposento da inglesa; e foi nesse instante que viu a santa sair
do quarto do tio, em trajes de dormir. O espanto foi imenso, a sua ingenuidade
dissipou-se e a verdade queimou-lhe os olhos... – Que pouca vergonha! Vá a
gente fiar-se nesses estrangeiros... Eles são como nós...”). Mais uma vez
acontece a prática do incesto, como em “Um Especialista”.
Durante
toda a sua vida como escritor, Lima Barreto foi tido como relaxado, pois escrevia
de uma maneira mais acessível ao leitor, escrevia para atingir um público de
leitores menos assíduos. Por essa razão foi negado na Academia Brasileira de
Letras. Em suas obras privilegiava os negros, pobres e desfavorecidos,
valorizando a minoria insignificante. Seus textos eram ficcionais, porém os
acontecimentos eram quase todos reais e alguns vividos pelo próprio Lima
Barreto.
Seus
contos possuem um grande leque de problematização e uma densidade psicológica
sem igual. Lima Barreto é um autor que fez uso da ironia para se defender e
através dela acabar com os paradigmas da sociedade, escrevendo contos cujos
temas servem também para os dias atuais. O crítico Rodrigo Lacerda define Lima
Barreto e a sua relação com a ironia: “A ironia em relação aos poderosos, que
garante boas risadas até hoje. Outra é a defesa do patrimônio público, uma
obsessão desse escritor que se tornou um porta-voz das classes populares. A
terceira é a prosa mais ligeira que o normal da época, construída de forma
menos rebuscada, preocupando-se menos em obter uma sonoridade retumbante e um
ímpeto grandioso.”
Referências:
BARRETO,
Lima. Melhores contos de Lima Barreto; seleção de Francisco de Assis Barbosa. 8
ed. – São Paulo: Global, 2002 – (Melhores contos)
FONTE: http://escritoseescrituras.blogspot.com.br/2011/04/blog-post.html
LEIA TAMBÉM ALGUMAS RESENHAS DE OBRAS DO MESMO AUTOR:
1. "O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA":
http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2716692
2. "CLARA DOS ANJOS":
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/clara-dos-anjos.html
3. "RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA":
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/recordacoes-do-escrivao-isaias-caminha.html
LEIA TAMBÉM ALGUMAS RESENHAS DE OBRAS DO MESMO AUTOR:
1. "O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA":
http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2716692
2. "CLARA DOS ANJOS":
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/clara-dos-anjos.html
3. "RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA":
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/recordacoes-do-escrivao-isaias-caminha.html
GRAÇA ARANHA
Resumo da Obra
Canaã:
Milkau,
alemão, recém-chegado, o a uma colônia de imigrantes europeus, no Espírito
Santo, aluga um cavalo para ir do Queimado à cidade de Porto do Cachoeiro.
Junto com ele vai o guia, um menino de 9 anos, filho de um alugador de animais,
no Queimado. Finalmente, chega ao sobrado do comerciante alemão, Roberto
Schultz, em Cachoeiro. Na parte inferior do edifício fica o armazém, onde é
negociada toda sorte de produtos. É apresentado a outro imigrante, von Lentz,
filho de um general alemão. Milkau deseja arrematar um lote de terra para se
estabelecer. Schultz apresenta-lhe o agrimensor, Sr.Felicíssimo, que está para
ir ao Rio Doce fazer medições de terra. Milkau, desejando aí se estabelecer,
decide se juntar ao agrimensor e convida o indeciso Lentz para acompanhá-lo.
Milkau
vê na fusão das raças adiantadas com as selvagens, o rejuvenescimento da
civilização. Enquanto acredita na humanidade, pensa encontrar no Brasil Canaã,
"a terra prometida". Lentz só se ocupa da superioridade germânica,
ficando enaltecido com o triunfo dos alemães sobre os mestiços. Para ele, a
mistura gera uma cultura inferior, uma civilização de mulatos que serão sempre
escravos e viverão em meio a lutas e revoltas.À noite, reúnem-se a Felicíssimo
e ouvem de alguns homens da terra e dos trabalhadores alemães lendas, evocando
o Reno e despertando saudades. Os planos dos dois imigrantes diferem; Milkau
deseja manter seu pedaço de terra e anseia por uma justiça perfeita sem
ganâncias ou lutas. Lentz está determinado a ampliar sua propriedade, ter
muitos trabalhadores sob seu comando. Sonha com o domínio do branco sobre o mulato,
numa confirmação de seu poder.
Após
as medidas tomadas por Felicíssimo, Milkau pode levantar sua casa e Lentz
deixa-se ficar, triste e angustiado, incapaz de abandonar o companheiro,
dedicando-se às viagens e compras da casa. No trajeto, encontra-se sempre com
um velho colono alemão taciturno, em companhia de seus cães ferozes, mas fiéis.
Mais tarde, encontrará esse velho morto em casa, guardado pelos animais e
devorado pelos urubus.
Acontece
uma festa no sobrado de Jacob Müller. Milkau diz a Lentz que era isso o que
buscava: uma vida simples em meio à gente simples, matando o ódio e esquecendo
da dor. Lentz vê em tudo aquilo uma existência vazia e inútil. Milkau conhece,
nesse dia, no sobrado de Müller, uma colona, Maria Perutz, que não consegue mais
esquecer o encontro com o rapaz. A história de Maria é triste e solitária. Ela
e a mãe moravam com um velho, seu filho, a nora Ema e o neto, Moritz Kraus.
Repentinamente, Kraus falece e a situação na casa de Maria se modifica. Ema e o
esposo decidem separar a moça do filho, temendo uma aproximação amorosa. A
família quer ver Moritz casado com a rica Emília Schenker e o enviam para longe
de Jequitibá. O rapaz parte com certa alegria, deixando Maria desgostosa, pois
os dois já eram amantes.Franz Kraus é procurado por um Oficial de Justiça que,
desejando saber porque a morte do velho não foi notificada, passa-lhe um
documento sobre a necessidade de arrolamento dos bens de Augusto Kraus. O grupo
se instala na casa e passa a chamar os colonos, amedrontando-os com extorsões e
violências. Após a visita, cobram de Franz Kraus a alta importância de
quatrocentos mil réis, além de demonstrarem certo interesse em Maria,
notadamente o procurador Brederodes. Kraus sente-se ultrajado e roubado. A vida
de Maria por essa época piora. Maria aguarda desesperadamente o retorno de
Moritz para lhe contar sobre o filho que espera. Os pais do rapaz não tardam
perceber o que se passa. Passam o dia a cochichar, a tramar para se verem
livres dela. Tratam-na com mais rigor, não lhe dão quase comida, dobram-lhe os
trabalhos. Uma manhã, trêmula e exausta deixa cair um prato. Encolerizada, Ema
grita para que ela abandone a casa. Amedrontada, arruma uma trouxa e sai. Pede
auxílio ao pastor, mas esse, dominado pela cunhada, docemente afasta Maria que
parte para a vila em busca de abrigo.
Maria
encontra uma estalagem, onde empenha a trouxa de roupa em troca de comida e
abrigo. A dona do estabelecimento lhe dá dois dias para encontrar um emprego,
mas a busca é em vão. Certo dia, na hora do almoço, Milkau reconhece Maria na
estalagem. Ao saber de sua história, prontifica-se a ajudá-la, levando-a para a
casa de uns colonos.Um dia trabalhando no cafezal, começa a sentir as dores do
parto. Temendo retornar à casa, resiste até cair e, esvaindo-se em sangue, dá
luz ao bebê. Alguns porcos, que estavam nas proximidades, correm para
lambê-los, mordendo o bebê que falece. A filha dos patrões chega nesse instante
e, sem nada perguntar, volta à casa, dizendo que Maria tinha matado o bebê e
dado a criança aos porcos. Dois dias depois, Perutz estava presa na cadeia de
Cachoeiro.
A
população germânica, horrorizada com o crime de Maria, prepara-se para a
vingança e o exemplo. Pede-lhes que deixem a punição da mãe assassina para os
alemães. O procurador Brederodes, ignorado por Maria na época, insiste em
puni-la para que aprenda a não ser tão orgulhosa. Chama todos os alemães de
hipócritas e parte, deixando Shultz desmoralizado. Milkau fica sabendo do
destino de Perutz e o encontro com ela em Cachoeiro choca-o. Volta a vê-la dias
seguidos, passando a ser olhado com desprezo e desconfiança, pois, talvez,
fosse o amante. Repelido pelos moradores, resigna-se com a condição de inimigo,
permanecendo ao lado de Maria. Certa manhã, estando em companhia de
Felicíssimo, Milkau encontra Maria, sendo levada por dois soldados para o
tribunal. Em cada fase do julgamento, é apontada culpada. Milkau acompanha
todas as sessões, chegando a ficar amigo do juiz Paulo Maciel. Este lhe diz que
o final não será feliz, pois os depoimentos não deixam brecha para a inocência.
A
avaliação não é das melhores. O juiz impossibilitado de fazer justiça por uma
série de circunstâncias observa que a decadência ali existente é um "misto
doloroso de selvageria dos povos que despontam para o mundo, e do esgotamento
das raças acabadas. Há uma confusão geral".
Finalmente,
numa noite, Milkau tira Maria da prisão e foge com ela, correndo pelos campos
em busca de Canaã, "a terra prometida", onde os homens vivem em
harmonia."
FONTE: http://aranhagraca.blogspot.com.br/2009/03/resumo-da-obra-canaa-graca-aranha.html
LEIA AINDA:
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/canaa.html
FONTE: http://aranhagraca.blogspot.com.br/2009/03/resumo-da-obra-canaa-graca-aranha.html
LEIA AINDA:
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/canaa.html
MONTEIRO LOBATO
RESUMOS DOS CONTOS DE URUPÊS:
(Por Rebeca Cabral)
Os faroleiros é um conto que narra a história de Eduardo, que viveu em um farol por alguns dias e nesse tempo testemunhou uma tragédia. Depois de ler um livro – O perturbador do tráfego – ficou curioso da vida em um farol e assim conheceu Gerebita, o faroleiro de Albatrozes. Através do dinheiro conseguiu passar uma temporada no farol, lá Gerebita lhe falou sobre o ajudante que tinha, Cabrea, o único homem que não podia ter sido escolhido para esse cargo. Ao falar de Cabrea, Gerebita acabou fazendo Eduardo acreditar que o homem era louco. E assim em uma noite ele acordou com barulhos de luta e testemunhou Gerebita matando Cabrea. A resposta do crime foi legítima defesa e o corpo foi entregue ao mar. Eduardo jurou segredo, mas saindo do farol contou o caso e veio descobrir que entre os faroleiros havia uma rixa porque Cabrea fugiu com a mulher de Gerebita.
O Engraçado Arrependido conta a história do chamado Pontes. Desde sempre ele fazia todos rirem absurdamente. Era considerado o homem mais engraçado das redondezas, mas com o passar dos anos ele se cansou de levar esse título. Decidiu se tornar um homem sério e a sua seriedade só lhe deixou mais engraçado – na opinião alheia. Ele tentou procurar emprego, mas todos achavam que ele estava era fazendo mais uma grande piada. Pensou então no Estado, ali o aceitariam. Queria a coletoria federal, cargo do major Bentes. O homem sofria de um aneurisma e podia morrer a qualquer momento, deixando a vaga. Pontes contava com um parente do Rio de Janeiro que lhe garantiria a vaga assim que ela estivesse disponível e, para isso, Pontes só teria que avisá-lo quando o major viesse a falecer. Mas Bentes se fazia forte e assim Pontes estudou tudo que existia sobre aneurisma e chegou à conclusão de que um grande esforço poderia matar o homem. Em seguida se aproximou dele e se tornou homem de sua amizade. Pontes acreditava que rir bastante era um esforço fatal ao major e assim descobriu o que lhe faria rir e trabalhou na melhor piada de todas. Em um jantar, deu seu golpe fatal: Bentes explodiu em uma última gargalhada. Pontes, então, tomado de culpa, correu para casa onde se escondeu por uns dias. Quando saiu da sua reclusa, recebeu uma carta do parente carioca que lhe dizia que o cargo havia sido ocupado, pois ele demorara a saber da morte do major. Alguns dias depois, o povo ria de Pontes, que se enforcara em uma ceroula.
A Colcha de Retalhos conta a história de uma família. José da Alvorada era o patriarca e há pouco recebera a visita de um amigo. Este encontrou, no rancho da família, o amigo José, naturalmente, a sua esposa Ana, a filha Maria das Dores e a sogra Joaquina. D. Ana na época já aparentava mais idade do que tinha e era atormentada por varias doencinhas. Maria das Dores era uma menina tímida e calada e Joaquina nos seus setenta anos ainda era animada e disposta. Ela costurava uma colcha de retalhos que daria à neta como presente de noivado, os retalhos que compunham a colcha eram todos pedacinhos dos vestidos que a menina usara ao longo da vida. O amigo foi ali para propor um negocio a José, mas este não se animou e, por isso, acabou indo embora. Dois anos se passaram e D. Ana morreu, e corria um boato que Maria das Dores fugira com um rapaz para a cidade, não pra se casar, mas para “ser moça”. Em uma noite, o amigo da família Alvorada sentiu que deveria ir até o rancho. Foi e lá encontrou Joaquina, já bastante envelhecida, que lhe contou a tristeza de ter perdido suas filha e neta. Ao ver a colcha de retalhos, ela lhe contou o que cada um daqueles pedacinhos representava e disse que seu último desejo era ser enterrada com a colcha. O amigo foi embora e depois ficou sabendo que a velha morrera e seu desejo não fora cumprido.
A vingança da peroba fala da briga entre duas famílias, a dos Nunes e a dos Porungas. A primeira família era composta mais por mulheres, só viera apenas um menino que, por influência do pai bêbado, começou logo logo a beber, a fumar e a bater nas mulheres; a terra não tinha selo e cultivo nenhum. Os Porungas, por sua vez, tinham um rancho bem cuidado, animais gordos e faziam até mesmo uma boa colheita. Chegou um dia em que Nunes decidiu reagir e enriquecer suas terras também. Plantou milho e precisava de um monjolo e por isso derrubou uma peroba que ficava na linha das terras entre os Nunes e os Porungas. Na manhã seguinte à derrubada da árvore, os Porungas vieram reclamar, falando que a árvore também lhes pertencia já que ficava no meio da linha de divisa. Nunes respondeu que se metade era dele, ele ia usar sua metade. Construiu o monjolo, o ajudante lhe disse que havia lendas de que as árvores têm alma e se vingavam daqueles que as derrubavam. Com o monjolo pronto, Nunes sonhava com a prosperidade que o milho lhe traria, mas a ferramenta não prestou como deveria. Ele até tentou arrumá-la, mas nada se deu. Logo ele virou motivo de riso entre o povo, porque um dos Porungas veio espiar o monjolo e contou a todos a porcaria que era. Foi assim que Nunes se pôs a beber com o filho. Mais tarde, entre os gritos das mulheres, encontrou a cabeça do menino separada do corpo graças ao monjolo.
Um Suplício Moderno conta o caso de Biriba. O governo da época tinha um cargo chamado estafetamento e tratava-se de uma espécie de pombo-correio que devia fazer a correspondência entre duas cidades que não eram ligadas pela via férrea. Biriba tinha se dado mal em todos os seus negócios, era lerdo e acabou por perder a fazenda e fechar o botequim. Sua vida se resumia a arrumar o seu topete e se interessar por política. O partido que defendia dava a ele sempre os piores ofícios como barganha pelo baixo número de votos que recebia. Quando o seu partido ganhou as eleições, Biriba experimentou o sabor da vitória e já sonhava com altos cargos quando a ele sobrou o de estafeto. Nada pior: quem ficava com esse cargo vivia na estrada, nunca chegava porque sempre havia a volta e a jornada seguinte e ainda tinha que enfrentar sol e chuva com folga de um único dia nos meses ímpares. Biriba, que só respondia “sim senhor”, seguiu no cargo, mesmo emagrecendo e empalidecendo. Reclamou e nem demissão conseguiu. Por fim nasceu nele a idéia de trair o partido. Nas eleições seguintes, ficou encarregado de levar um “papel”, algo essencial. Na ida se meteu no mato e ficou na casa de um negro por dez dias; quando voltou seu partido tinha perdido e ele, quando questionado do que ocorrera, dizia não entender, pois havia entregado o papel no dia seguinte à sua partida. No novo governo vieram lhe comunicar que todos foram demitidos, mas o cargo dele seria sempre dele. À noite, Biriba amarrou a égua e sumiu.
Meu Conto de Maupassant conta a história de dois viajantes. Os dois conversavam no trem até que um avistou uma árvore e contou uma história ao colega de quando era delegado ali na região. Ele dizia que vieram lhe contar que um tal italiano que ali vivia, do tipo ruim, bêbado e jogador, tinha matado uma velha com uma foice, separando-lhe a cabeça e o corpo que se encontravam ali ao pé da árvore. Ele prendeu o italiano e tudo levava a acreditar que ele era o culpado, mas no dia seguinte já estava solto. Mesmo assim ele continuou de olho no italiano que vendeu seus negócios e foi embora. Anos mais tarde o caso ressurgiu e prenderam o tal, ele voltou sem objeções e olhava o tempo inteiro pela janela. Quando passou por aquela árvore, pulou fora do trem e depois encontraram-no com a cabeça rachada nos pés da mesma árvore. Um tempo depois, o filho da velha morta foi preso por matar um companheiro com a foice e, estando preso, confessou ter matado a mãe.
Pollice Verso fala da história de Nico, filho do coronel Inácio Gama. O coronel era metido em leituras e usava sempre entre suas frases palavras complicadas. Certa vez, vendo o filho maltratar os animais, disse que o menino daria para médico e assim o fez. Quando homem, Nico saiu da fazenda e foi para a cidade, onde se formou em Medicina. Lá também entrou nos amores com uma francesa, Yvonne, que já tinha prometido a mais oito homens o seu coração, e a cada um indicara uma constelação para lembrarem-se dela. Depois disso, Nico voltou às terras do pai. Passava todo o tempo farto da vida no interior lembrando-se dos amigos, amores e farras da cidade. Olhava para as estrelas e lembrava-se de Yvonne e sonhava em ir a Paris ter com ela. Nesse ponto que adoeceu o Major Mendanha, que tinha trinta contos. Chamaram o Nico para tratar dele, o menino diagnosticou a doença e declarou a cura em um mês. Porém era costume naquela época dar a herança ao médico que tratava o doente caso ele morresse. Assim Nico, que sonhava com o dinheiro fácil – motivo pelo qual fez medicina – para ir a Paris ter com Yvonne, optou por deixar morrer o major. Entrou na justiça e ganhou os trinta contos. Foi para a Europa ter com sua amada. Escrevia pro pai dizendo ter palestras com ilustres médicos e ser residente em três hospitais, mas a verdade é que os três hospitais eram os três cabarés que freqüentava quando não estava no apartamento de Yvonne. No Brasil, ficava o coronel iludido e a mãe já era morta mesmo.
Bucólica – ele era um amante da natureza, gostava das flores... Era sensível. Ficou sabendo que a Anica tinha morrido, perguntava do quê, mas ninguém sabia responder. Tinha morrido. Só isso podiam e sabiam dizer. Finalmente encontrou Inácia, uma agregada da casa dos Suãs – família da menina – essa saberia do que a menina tinha morrido. A negra contou. A menina tinha morrido de sede! Era aleijada, estava doente e então Inácia foi ao bairro do Libório, mas começou a chover e ela ficou presa por lá. À noite, Anica pediu água para a mãe, mas ela não buscou e a pobre, já sofrendo na cama, ficou a gemer com sede. Encontraram o corpo dela na cozinha, aos pés do pote de água. Não conseguiu nem alcançar o pote, a caneca estava como antes, toda a cozinha estava como antes, exceto pelo corpo da aleijada que se arrastou até lá para morrer de sede tão perto da água.
O Mata-Pau – o capataz e ele estavam andando pelas terras quando pararam para beber água. Ali ele avistou uma árvore e perguntou que tipo de planta era aquela. O capataz explicou que era um mata-pau, uma árvore que parasitava na outra até matá-la. Seguiram o caminho até que passaram por uma casinha, o antigo sítio do Elesbão. O capataz, então, foi contar a história do sítio. Elesbão vivia ali com o pai, quando entrou na puberdade disse que queria casar e o pai, crendo que o rapaz era homem, falou-lhe que escolhesse a noiva. Ele casou se com Rosinha, era feia e as moças da família tinham má fama, mas mesmo assim casou-se. Viviam bem no sítio e a moça acabara ficando bonita, engordara e era uma das mais belas da redondeza. Foi quando ouviram o choro de uma criança lá fora. No dia seguinte encontraram o bebê e resolveram criá-lo. Chamava-se Manuel Aparecido. Conheciam-no por Ruço e, à medida que crescia, ia mostrando que não era bom rapaz. Elesbão reclamou com o pai que se arrependera de ter acolhido o bebê. O pai morreu. Viviam só os três agora, e Ruço já chegava aos dezoito anos quando ele e Rosinha começaram um caso. Na rua comentavam, falaram pra Elesbão abrir os olhos, mas ele acabou morrendo sem nada saber. Neste tempo Rosinha envelhecera muito mais do que a quantia de anos passados e ela amava Ruço mais do que ele a ela. Ele a maltratava, mas mesmo assim, como última prova de amor, ela fez a vontade dele e vendeu as terras do sítio, iriam embora. Na noite antes da partida, Rosinha acordou com a casa pegando fogo, ela estava sozinha e trancada, mas conseguiu escapar. Amanheceu no mesmo lugar onde encontrara Ruço quando ainda era um bebê. Levaram-na para o hospital, as queimaduras curaram, o juízo se perdeu. Mas ainda foi feliz, pois quando sua vida iria virar um inferno, enlouqueceu.
Bocatorta conta a história de um negro horroroso, com a boca torta e a gengiva parecendo uma ferida com pedaços de dentes, pernas tortas e pés desalinhados. Ele morava no mato da fazenda do coronel Zé Lucas. Vargas, que contava do tal negro a Eduardo, era noivo de Cristina, a filha do coronel. O doutor ficou interessado pelo negro e quis conhecê-lo, assim, no dia seguinte iriam visitá-lo. Cristina não se animou com a visita, pois quando criança metiam medo nela usando a imagem do Bocatorta e até pouco tempo tinha pesadelos em que o negro a perseguia. Eduardo, então, incentivou-a a acompanhá-los, porque nada melhor que a realidade para curar os enganos da imaginação. No jantar falaram sobre um caso que corria na cidade: no túmulo da Luizinha, moça morta recentemente, foi encontrado a terra fuçada e pegadas estranhas a humanos e a animais. E dessa vez o padre tinha visto também, não só o coveiro. Na manhã seguinte, todos foram ver o Bocatorta. Cristina fez todo o caminho calada e temerosa. Quando chegaram à tapera, o negro saiu da porta que mal passaria um homem rastejando e ficou ali no cercado junto com seu cachorro magro e sarnento. Cristina e sua mãe, d. Ana, se afastaram de imediato e evitaram olhá-lo. Eduardo, após ver o monstro, se afastou também. Logo estavam de volta. No dia seguinte, Cristina amanheceu febril, foi diagnosticada a pneumonia e no décimo dia ela morreu. Eduardo, na noite da morte de Cristina foi visitar o túmulo de sua ex-noiva. Andando pelo cemitério à procura do túmulo dela, deparou-se com um corpo alvo agarrado por um outro, negro como carvão. Eduardo saiu correndo e só parou quando chegou à casa do coronel. Contou que mexiam no túmulo de Cristina, o que fez sairem o coronel, o capataz e Eduardo. O último ficou no meio do caminho desmaiado. O coronel e o capataz foram atrás do necrófilo Bocatorta e quando já o tinham preso, chamaram Eduardo. Iam matar com um tiro o negro, mas Eduardo deu uma sugestão melhor. Jogaram-no pântano que tinha na fazenda, tão profundo que era preciso três bambus amarrados um no outro para alcançar seu fundo. No dia seguinte o cachorro do Bocatorta chorava ao lado do pântano e o corpo de Cristina estava de novo enterrado levando o beijo do negro consigo. O único beijo que ele já experimentara.
O Comprador de Fazendas conta uma história ocorrida na chamada fazenda do Espigão, tida como a pior fazenda que já existiu. Já tinha falido três donos e agora levava mais um para a bancarrota, chamava-se Davi. Já perdido em dívidas, ia vender a fazenda. Veio para olhar as terras um tal de Pedro Trancoso, preparam tudo para convencê-lo de que era uma boa terra. Quando o rapaz chegou, achou toda a fazenda muito boa e aceitou o preço que foi proposto, sem levar os animais nem a mobília. Partiu no outro dia levando alguns ovos e a barriga cheia de bolinhos, frango e manteiga. Tudo arranjado para a visita dele. Voltaria na semana seguinte para fechar o negócio. Assim, no coração da família nasciam os sonhos. A mãe, Isaura, já sonhava com uma bela e grande casa; Zico, o filho, já tinha garantido com o pai seis contos para começar seu armazém e Zilda, a filha romântica, sonhava com o casamento com o tal do Pedro Trancoso que ficara cheio de galanteios para com ela. Acontece que os dias passaram e ele não voltou. Davi escreveu a um parente que era da mesma cidade do comprador e este contou-lhe que a verdade é que ele não passava de um picareta que dizia-se interessado pelas fazendas em todo o país para se aproveitar da hospitalidade dos donos das terras. Assim os sonhos da família ruíram. Um tempo depois, Pedro Trancoso voltou ao Espigão. Ele havia ganhado na loteria e queria casar com Zilda, dando ao sogro o posto de organizador das terras do Espigão, as quais iria comprar. Mas quando se aproximou da fazenda, foi recebido com lambadas e posto dali pra fora sem nada dizer. A pobre da Zilda ficou na janela vendo as esperanças que tinham lhe nascido com a volta dele morrerem. Depois com o tempo concluiu que morrer de amores é coisa só de romances.
O Estigma conta a história de dois amigos. Bruno andava por essas terras quando por acaso chegou à fazenda de Fausto, antigo amigo da época da escola que não via há tempos. Encontrou-o casado e com filhos, mas logo viu que casara pelo arranjo financeiro, pois a mulher era má. Vivia ali também uma mocinha, Laura, prima de Fausto, que ficando órfã foi recolhida por ele. Bruno galanteou com ela e depois de conhecer as terras do amigo foi embora. Anos mais tarde eles se reencontraram, Fausto então lhe contou a tragédia que fora sua vida. Naquele primeiro reencontro Fausto disse a Bruno que Laura era o único raio de luz e calor existente na Noruega fria que era sua vida, seu casamento. Depois disso, Fausto descobriu que amava Laura, lutou contra o sentimento, mas seu relacionamento com sua esposa, que já não era bom, piorou. Em um dia, ele saiu para caçar e viu Laura saindo também em direção a floresta, pois ela tinha o costume de ir para lá bordar. Fausto acabou não caçando, mas refletindo muito sobre sua vida. Quando voltou, um dos seus filhos lhe perguntou se ele tinha visto a Laurinha que tinha saído há tempo e não voltara. A esposa estava trancada no quarto e não queria ver ninguém. Fausto saiu com seus homens atrás de Laura e depois de muita busca encontraram-na morta, ferida por um tiro. A moça suicidou-se com o revólver de Fausto. A esposa não quis ver a moça morta, usando a sua gravidez como pretexto. Fausto nunca entendera a morte de Laura, sem nenhuma carta que justificasse e ainda usando o revólver dele, o mesmo que só ele e a esposa sabiam onde ficava. Finalmente quando nasceu o filho, descobriu todo o mistério. O menino nasceu com uma cicatriz que refazia com precisão o ferimento e o sangue que foi encontrado em Laura. Fausto não se conteve e mostrando o corpo do menino à sua esposa a acusou do crime, ela não disse nada e em pouco tempo morreu. Fausto, então a essa altura da história, chamou o filho para mostrar a Bruno a marca de nascença. Este, que ia fazer um comentário, foi calado por Fausto, pois o menino não sabia da verdade.
Velha Praga fala da praga que é o homem, ou melhor, o caboclo. Ele vem com sua mulher, que carrega um menino na barriga, um no braço e outro de sete anos agarrado em sua saia com uma faquinha na cintura e já com um fumo na boca, além de um cachorro sarnento. Erguem uma tapera de sapê, penduram o santo e se estabelecem ali. Em agosto, deitam fogo na terra, destroem tudo com ele, ainda olham e falam “que fogo bonito”. Com isso deixam a terra pura cinza e em setembro, quando a chuva vem, plantam milho. Depois, quando a terra para de dar o milho, eles vão embora. Em pouco tempo a terra engole a taperinha que construíram. A justiça não faz nada contra o fogo que eles causam, a lei não os prende por isso. O caboclo apenas é “tocado”, mandado embora das redondezas, mas sempre repete a dose onde se estabelece e depois vai embora, deixando a natureza se encarregar de esquecer sua passagem.
Urupês fala do caboclo. Começa contando como na literatura caminharam até chegar ao índio e depois o trocaram pelo cabloco. Fala também de como nos livros o cabloco é uma coisa muito diferente da realidade. Porque, na verdade, o caboclo não tem nada de admirável, o que ele vende é o que a terra dá e a qualquer um basta colher; ele não precisa de banco porque seu calcanhar rachado lhe serve de tamborete; ele não conhece talher porque as mãos já fazem o papel da faca, do garfo, da colher, usa no máximo uma tigela. Vive em sua casa de sapê e, se uma goteira aparece, coloca uma tigela para aparar a água; buracos na parede servem de gaveta. Justifica-se dizendo que não vale a pena. Qualquer serviço não vale a pena pro caboclo, pro jeca. Não precisa de guarda-roupa porque só tem a que veste e uma que está lavando. Democracia conhece só como ir buscar os papéis com um coronel e votar em nem sabe quem. Doença se cura com três caroços de feijão e etc; parto perigoso resolve com uma foto de são Benedito. De religião tem os santos como os coronéis do céu e usa de Deus como justificativa, “Deus quis”. Arte não produz nenhuma. E assim vai todo o conto retirando do caboclo todo o romantismo.
FONTE: http://vestibular.brasilescola.com/resumos-de-livros/urupes.htm
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